quinta-feira, 22 de setembro de 2022

A neurose de Sísifo: Corpos ébrios

- Sísifo… Sísifo… acorda! Acordei de sobressalto. Meu irmão cutucava para eu acordar. 

Hoje eu não vou, não quero. Disse resmungando baixo.

Não adiantava. A maldição estava sobre mim. Eu teria que carregar a grande pedra sozinho. Não mais ninguém, apenas eu. 


Estava chovendo, sai na chuva mesmo. Estava frio. Eu tinha esquecido em algum lugar meu guarda chuva. Acho que era para isso que eles existem, se perder do dono quando não mais importam. 

Me arrastei até a estação de trem. A pedra estava mais pesada que o normal nessa manhã. Arrastei. Eu não me acostumava. 


Se amontoaram em volta do trem na estação gélida de Porto Alegre. Fazia muito frio às 6:58 da manhã de uma quarta feira. Uma multidão silenciosa veio em minha direção como urubus à espreita da carcaça. 


- o que vocês vão caçar hoje? Pensei. Um jovem com uma Bíblia preta de capa dura se engrenou no meio da multidão. Falava sobre a eminência do fim do mundo. 

- É bom que todos estejam com a salvação em dia. Disse com sorriso no rosto como se a manhã lhe desse mais motivos para viver do rebelar-se contra o sistema operacional imposto e rígido do neoliberalismo. Ele me olhou, desviei para o chão. Andava como se flutuasse entre os ombros dos casacos pretos da gente trabalhadora. Não teve jeito, parecia que estava atraindo seu corpo em minha direção. Eu tava no limite da estação e o vão. Mais um passo eu estava entre a vida e a morte. Avistei o trem chegando ao longe.


- Me deixa em paz. Pensei.

- Quer aceitar Jesus como seu… De repente uma avalanche de sangue inunda aqueles corpos ébrios habituais.


A cena aconteceu em câmera lenta. Ouvi o barulho dos ossos se partirem como borracha. A multidão empurrou o jovem contra os trilhos no momento em que o trem chegava. Parte do seu corpo ficou pendurado entre o trem e a plataforma. O trem não parou de imediato. O corpo foi moído tecido por tecido. Parecia sua expiação. O sangue, rubro negro se abria como um tapete vermelho para os pobres passarem por cima em direção aos seus compromissos diários. Foi um momento de glória pela chegada do trem e de blaser diante da desumanização da cena que sucedeu. O sangue ainda fresco, via-se a fumaça quente subir e desaparecer em instantes. Ninguém fotografou. Entraram no vagão e se limparam e voltaram-se para seus celulares. 


- tudo de novo. Pensei. Eu fui empurrado pela multidão voraz. 

- vocês estão indo em direção ao que? Pensei em dizer.


Sentados como gados indo ao abate, não queriam mais pensar em nada. O trem seguiu seu caminho. As marcas de sangue em forma de pegadas já se transformou em outra coisa. Muda-se o signo de lugar, ele perde seu sentido. Limpei-me antes de sentar. Tentei encontrar alguma dignidade para seguir em frente. Não encontrei nada. O mundo daquele indigente parou, o nosso mundo continuava a girar. 





quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Crônicas da existência: encruzilhada do sul

 O por do sol laranja ao fundo refletia seus tons finais nas águas calmas das plantações submersas de arroz. O reflexo formava a imagem desenhada a duras penas um quadriculado mosaico. Cada parte impunha contra minha vontade a verdade diante os meus olhos: a solidão. À medida que o dia se tornava noite ia confundindo-se o espelho interno que refletia o breu externo. Eu já não mais sabia o que era meu e o que era projeção. Eu desejava ficar ali, estático entre a vegetação dócil. O mosaico fluido quadriculado lembrou a visão de dentro de uma prisão. Sim, eu estava preso. Tentei lançar luz sobre aquilo tudo, era em vão, eu não era nada diante a avassaladora natureza. Me perdi novamente de mim mesmo, como água calma que corre entre os dedos, você até pode tentar conter, mas será tolice ir contra o inevitável. 

A grande escuridão se transformou em um tipo de buraco negro que abriu dentro de mim. Senti uma angústia tomar conta da minha existência, eu já era um com tudo aquilo. Estava diluído. Já não fazia mais sentido resistir, apenas parei de lutar e deixei-me engolir pela escuridão que lembrava de forma mais fria e real aquilo que era familiar. 

Parecia que estava sempre ali à espreita de me consumir. 

Eu senti, senti muito, senti tanto. A solidão é fascista. Impõe-se contra mim. É familiar. 

Por onde você andou doce solidão? Ensina-me a conviver outra vez contigo. Parece que você não foi embora. Será que dessa vez vai passar? Quando o dia chegar? 

Perdi a barreira que demarcava o que era dentro e o que era fora. 

Amarga solidão, torna-se solitude. Até o arroz encontrou mosaico para si. Eu não quero mais sentir isso. Saia. Por favor. Mais uma vez não. Eu não quero. Chega. É isso, por fim, estou numa encruzilhada do sul.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Onipresente Sol

Lá fora fazia sol, já estava alto e o tempo parecia não passar. As árvores, da mesma forma, pareciam não se mover. Estava tão fria aquela manhã de Julho em Porto Alegre, que pensei estar - como eu - congelada, pois as folhagens formavam um tapete estático, tive a sensação de demasiado prazer. Com o tempo, resolvi escrever sobre o sol, o grande onipresente sol. Abri mão do meu ciúme. Algo antigo, íntimo e profundo; era natural, fisiológico como a saliva sai das glândulas e como a bile sai do fígado. Entretanto, ele ainda constumava a ser o centro do mundo, do meu mundo, e, tudo sem nehum esforço. E o dia foi se adequando até ficar dia perfeito. Contudo, o sol continuaria a brilhar mais e mais

domingo, 6 de julho de 2014

Constância

Fazia escuro lá fora. Naquele inverno, a chuva parecia não ter fim e caía demasiadamente constante, em Porto Alegre. Era estranho experimentar uma sensação de escuridão tão cerrada, o dia teria diminuído. Pela primeira vez não tive vontade de sair de casa, permanecia-me ali. Peguei um papel e escrevi apenas uma palavra "constância". Um dia eu saberia que não seriam necessários versos nem rimas, uma só palavra seria suficiente desde que bem declinada e descrita.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Efêmero

Abri os meus olhos - eu realmente não desejava - esse foi o sinal para começar a guerra. Lutei contra todos os meus medos, angústias, infelicidades, ironias e inconstâncias. Breve e efemero é o tempo; são todos os dias iguais: quente, morno, ameno e frio. Assim se vão os anos. É uma ordem que eu não escolhi -  e de fato eu não pertenço a ela. Todas as minhas tentativas de lutar contra a rotina, tornou-me forte. No entanto, blindei-me de lembranças que me trazem esperança em dias grises, e, como em um fechar de olhos, o dia termina. Dormirei, portanto.

Folhagem

A janela continua aberta, a mesa deve estar sob um bom livro, a música poderá atravessar o assoalho, passou a primeira ventania e me levou a lembrar que, afinal, o outono ainda não enviou o seu comando definitivo de despedida às árvores. Eu ainda não me despedi das folhagens, tudo está no seu lugar, eu deveria ficar por aqui.

sábado, 15 de março de 2014



Porto Alegre, 2012 – um convite de 15 anos.
Era uma vez, uma história real a meu ver, que envolve duas pessoas. (You and I). Você havia feito um convite para o seu aniversario de 15 anos. Meu nome estava, terrivelmente, escrito errado. Na verdade, foi um grande acidente, um velho conhecido gostava de você (risos) e eu estava sendo o intermediário, para dar o presente dele para você, já que ele não podia chegar perto de você. Esse foi nosso primeiro contato de verdade, no qual, meu córtex cerebral se lembra. Você parecia mais jovem, com longos cabelos, e um inefável sorriso. Sempre gentil e educada. Não sabia que, em poucos dias, tudo poderia mudar depois do grande dia. Depois do seu aniversario, eu estava completamente apaixonado, e com ciúmes do menino que você gostava na época, no qual, dançou contigo. Nessa mesma época, cheguei a falar com a Adelei e guardamos isso entre nós.
Porto Alegre, julho de 2012 – Viagem para Goiás: Goiânia, Mineiros e Costa Rica MS.
Nessa época, eu já estava dando em cima de você, quase que descaradamente, eu de fato, estava te vendo com outros olhos, um olhar apaixona. Bem, você sabe, foi muito intenso e forte minha paixão por você nesse tempo. Eu sentia que ia explodir, minha corrente sanguínea acelerava, minha pulsação aumentava, você era tudo o que eu sempre quis: discreta, inteligente, diferente, criativa (em grande parte), sem interesse, profunda, com grande potencial (eu nunca duvidei), e outras grandes características psicológicas me atraíram. Até os defeitos me fez aproximar, a grande vontade de te ajudar também!
Porto Alegre, 04 de julho de 2012. - Nosso Dia!
Eu, por telefone, confessei estar gostando de você. Nesse dia conversamos quase que a noite toda, colocando os postos positivos e negativos para um relacionamento e pré-estabelecendo datas para tudo (inclusive eu, em todas elas). Foi um dia feliz, alegre e totalmente diferente. Algo em minha vida havia mudado, eu tinha certeza disso! E, agora será para sempre. O dia em que tu disseste que eu poderia ser uma escolha, o dia em que tu disseste “Sim” para mim, de alguma forma. O dia em que a (ACBC) nasceu haha em meu celular, nessa época, eu estava bem popular na Brasa, então tinha que ser restrito. Foi o tempo das grandes declarações, dos grandes conselhos, aproximação. Quando eu voltei, estava de cabelo liso (risos) eu me lembro daquilo.
Porto Alegre, 2013. – Aproximação.
No primeiro semestre do ano passado, foi de muita aproximação. Começamos o ano juntos, e assim fomos sendo divulgados por toda igreja que, de fato adorou a ideia, estávamos cada vez mais juntos, fizemos o cursinho juntos que foi muito bom, nossa, foram tantas coisas NE? Aii aii... foi muito bom, tudo aquele semestre. Depois...
Porto Alegre, 2013. – A página Branca.
Foi um semestre de reescrever tudo, de pensar, de planejar, de orar, de perder para ganhar. Em uma pesquisa de casais diz: Dentro de dois anos é muito comum casais novos brigarem muito e se desentenderem... Mas daquilo tudo que passamos, eu tenho a certeza que te amo muito e que estou indo, até onde eu sei, ao caminho certo. Foi um tempo para pensar, e rever certas coisas que estavam dentro de mim. E, você foi muito importante nesse tempo. Eu pude aprender, a saber, lidar com essas coisas e a te amar mais. Sobre a árvore que você comprou porque eu havia indicado haha e que foi terapêutico tudo aquilo rsrs nossas viagens, pequenas viagens, o retiro que foi muito distante, aquela distancia foi muito importante para crescermos, acho que tudo é para crescimento, fortalecer o que é de verdade é como uma sonda.
Você é muito importante para mim, eu te amo de verdade, e, bom, você sabe, eu quero namorar. Mas não quero nada falso, quero tudo verdadeiro e real. Se não der certo, se não for isso. Eu sei como sempre, irei superar. Vamos viver o hoje, e ver o que temos a ser oferecido hoje para vivermos a vontade de Deus. Temos essa oportunidade!


Parabéns, feliz aniversario! Happy Birthday! Tenha um ótimo dia, mesmo com chuva e com nuvens, lembre-se: sempre haverá um sol brilhando além de tudo! Foram anos inesquecíveis ao seu lado, desde que eu cheguei, tem sido a cura de Deus para minha vida, tem sido as flores que faltavam em minha primavera árida e me ajudou a ver e a sorrir diante ao caos, sim, foi um grande apoio em tudo! Obrigado por lutar contra todos os meus pesadelos, obrigado por suportar-me quando ninguém mais suportou. Obrigado por enxugar as minhas “lagrimas” quando eu “chorei”. Você é muito importante para mim, e, é um privilegio fazer parte da sua vida. Amo-te.
 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

De um lado, temos o pessimismo, que traz a maravilha da segurança diante do fracasso e a maleabilidade de criar novos rumos, mas também o horror de não experimentarmos nada e levarmos uma vida gris.
De outro, a fé, que traz o horror da ameaça de perdermos tudo quando algo falha, mas a maravilha de, antes disso, crermos que ali estava a vida por inteiro.
F.P

domingo, 15 de setembro de 2013

Aos pés do abismo

Eu por diversas vezes tentei ser mais tolerante, tanto comigo e para com os outros. Mas na verdade a cada dia uma enxurrada de adversidades tem roubado meu equilíbrio emocional. Um dos frutos do espírito é a moderação, estava quase certo que não faltava quase nada para alcançar tal sensatez. Quando me deparei à frente de um abismo, minha voz em um eco soava na imensidão, sentei-me em um rochedo que estava próximo, eu queria resistir. Eu o questionei dizendo: por quê? Não eram para meu crescimento tais obstáculos? Não eram superadores tais enigmas? Todo meu esforço em ser coerente, não valeu de nada? Mas aquele de longe foi o mais cruel.
Eu tinha prometido a mim mesmo que seria mais tranquilo, não levaria problemas para casa, teria mais sonhos com Deus, contemplaria a primavera de setembro, abraçaria mais, faria da vida uma festa. Mas não cumpri minhas promessas. Por isso conclui que eu não podia culpar ninguém por minhas falhas. Tinha que assumi-las com honestidade. Também conclui que não adiantava ficar remoendo a culpa: eu tinha que compreender minhas limitações e aprender a corrigir minhas rotas. É um tempo de esperar no silencio até que do alto me seja revelado o caminho a seguir, seja ele continuar e atravessar o abismo, ou criar outra rota.
De repente esse abismo tornou-se o espelho da minha história. Senti que meu maior desafio era liderar minha vida através de Jesus, e deixar que ele tome o controle das grandes e pequenas coisas, embora eu tivesse abandonado minha vida. Eu necessitava modificar minha história, mas sentia-me tão impotente. Eu entendi que de alguma forma eu estava me empurrando em direção do abismo. Percebi que não fazia escolhas e que não exercia o livre-arbítrio.
Eu tenho que dar mais atenção aos meus amigos, amar mais os íntimos, promover novos começos. Precisava elogiar mais e criticar menos, agradecer mais e reclamar menos, viver mais suavemente e cobrar menos das pessoas. Eu olhei para todas as minhas tentativas frustradas de tentar mudar minha vida e comecei a achar que era quase impossível vencer meu mau humor, minhas lamentações, minha ansiedade, minha impaciência, minha irritabilidade.
Eu aconselhei muitas pessoas a deixar de ser frágeis, a parar de olhar para os próprios pés, a levantar a cabeça a deixar os olhos fixos em Deus. Mas agora eu não conseguia ouvir minha própria voz, agora eu me encontrava inseguro e paralisado.

Esse abismo revelou que eu vivi a mais dramática solidão: a de esquecer-me e desprezar a minha trajetória existencial. Tentei cuidar de muitos, mas não tanto de mim. Esqueci-me de reciclar o passado e não me fixar a ele, de relembrar da base da minha psique, um lugar onde nenhum dinheiro tem valor e a sabedoria vale muito... Empobreci, tornei-me triste e ansioso. Chorei...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Confissão do meu amor


Partiu o dia, e tudo, nele, o que é doçura!
Doces lábios e voz, lido cabelo trançado,
Morno alento, enlevado, encantador cicio talhe perfeito, olhar de luz!
A visão da beleza ao meu olhar perdida,
A forma da beleza de meus braços partida,
Partidas voz e calor, a alvura e o paraíso...

Não quero ver os meus dias terminar
Antes de apenas me aliviar, antes
De muito livro ler sem conter, em alta pilha, me encerrar
Como um pássaro proibido de cantar.

Sim, eu vejo, nas feições da noite constelar,
Enormes símbolos nublados de um romance no qual eu pensei em idealizar,
E penso que não viverei para copiar
As suas sombras com a mão ágil de um relance;
Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
Bela mortal de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
Do amor irrefletido! - então na orla do Guaíba
No vasto mundo eu fico só, a meditar,
Ate ir glória e ternura no nada naufragar.

Tudo se esvaneceu ao fim do entardecer,
Quando o fusco dia santo,
Ou antes, noite santa
Do amor cortinado a trama adianta
Na escuridão, para ocultar tudo o prazer:

Mas li o prontuário do amor e dormirei, portanto.