quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Crônicas da existência: encruzilhada do sul

 O por do sol laranja ao fundo refletia seus tons finais nas águas calmas das plantações submersas de arroz. O reflexo formava a imagem desenhada a duras penas um quadriculado mosaico. Cada parte impunha contra minha vontade a verdade diante os meus olhos: a solidão. À medida que o dia se tornava noite ia confundindo-se o espelho interno que refletia o breu externo. Eu já não mais sabia o que era meu e o que era projeção. Eu desejava ficar ali, estático entre a vegetação dócil. O mosaico fluido quadriculado lembrou a visão de dentro de uma prisão. Sim, eu estava preso. Tentei lançar luz sobre aquilo tudo, era em vão, eu não era nada diante a avassaladora natureza. Me perdi novamente de mim mesmo, como água calma que corre entre os dedos, você até pode tentar conter, mas será tolice ir contra o inevitável. 

A grande escuridão se transformou em um tipo de buraco negro que abriu dentro de mim. Senti uma angústia tomar conta da minha existência, eu já era um com tudo aquilo. Estava diluído. Já não fazia mais sentido resistir, apenas parei de lutar e deixei-me engolir pela escuridão que lembrava de forma mais fria e real aquilo que era familiar. 

Parecia que estava sempre ali à espreita de me consumir. 

Eu senti, senti muito, senti tanto. A solidão é fascista. Impõe-se contra mim. É familiar. 

Por onde você andou doce solidão? Ensina-me a conviver outra vez contigo. Parece que você não foi embora. Será que dessa vez vai passar? Quando o dia chegar? 

Perdi a barreira que demarcava o que era dentro e o que era fora. 

Amarga solidão, torna-se solitude. Até o arroz encontrou mosaico para si. Eu não quero mais sentir isso. Saia. Por favor. Mais uma vez não. Eu não quero. Chega. É isso, por fim, estou numa encruzilhada do sul.

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